Um exemplo do que não se deve fazer

 Um exemplo do que não se deve fazer

Com o título “Inspirados na ‘profecia bíblica’, cristãos sul-coreanos ajudam judeus a voltar para Israel” [1], uma notícia veiculada recentemente dá conta de que foi feita uma “doação de 1 milhão de dólares para ajudar judeus a retornar para Israel”, isto é, fazer a aliyah, que é a imigração para Israel.

A alegada “parceria” entre cristãos e Deus para levar de volta os judeus exilados da Terra Santa desde o ano 70 da Era Cristã, carrega equívocos incontornáveis na compreensão bíblica como um todo e da própria fé cristã e a sua missão entre os diferentes povos.

A Igreja não foi chamada para uma missão assim, de ajudar a “Deus no cumprimento da profecia bíblica, que promete o retorno dos judeus exilados à Terra Santa dos ​​quatro cantos da terra”. Somente leituras forçadas do texto bíblico levam a esse entendimento. As promessas dadas no Antigo Testamento, bem como a indicação de Paulo na carta aos Romanos 9―11 de que haverá um retorno dos judeus dispersos para a região não indicam a intervenção humana, menos ainda que a Igreja fará esse trabalho ou parte dele.

Seguindo o exemplo em Daniel, quando semelhantemente os judeus estavam no exílio babilônico, pressupõe-se ao menos um arrependimento do povo pelo mau comportamento e rebelião contra o Senhor antes de uma intervenção e restauração. Portanto, a ideia de que nós possamos ajudar a Deus na realização de um projeto específico e inacabado e que não diz respeito à evangelização é estranha ao contexto bíblico, porque o retorno dos judeus hoje não tem implicado simpatia nem adesão à fé cristã.

Dois pontos implícitos no interesse dos judeus no apoio cristão são, primeiramente, a ordem econômica milionária, que retira de outros povos os já escassos recursos para treinamento, envio e manutenção de missionários transculturais (exposto em meu livro Intolerância religiosa na Igreja, Ed. Reflexão, 2019). Tenho conhecimento de que no Brasil há ministérios que drenam recursos que deveriam ser investidos em missões de evangelização dos povos e são destinados para que o Estado de Israel, uma das maiores potências econômicas no planeta, invistam os recursos da Igreja no estabelecimento daqueles que migram para aquela região no Oriente Médio.

E aqui há o segundo componente menos conhecido dos cristãos e que envolve uma questão jurídica. Trata-se da disputa pela legitimação internacional da narrativa da posse da terra, conforme minha pesquisa de doutoramento (entre outras) investigou. Em termos legais, o direito internacional estabelece que Israel é uma potência ocupante de terras de outro povo, no caso, os palestinos. Ainda que por desinformação, muitos cristãos brasileiros consideram os palestinos elemento estranho na terra, isso quando não os chamam de “terroristas”. Ora, entre os palestinos há diversas igrejas cristãs, como batistas, anglicanos e pentecostais. O mesmo não há entre os judeus, de modo que vejo isso com absoluta estranheza da parte de cristãos que se dizem “preocupados” com judeus, mas desamparam os próprios irmãos na fé (Gálatas 6.10), deixando de lado o cuidado de outros povos em favor de um povo que tem interesse claramente econômico, mas não em converter-se a Jesus.

Somente na Coreia do Sul estima-se em 10 milhões de cristãos que veem “seu apoio a Israel como mais do que apenas uma escolha moral, mas um mandato bíblico”. Isso certamente não tem apoio bíblico algum. Não passa de mera “superstição evangélica” visando bênçãos de ordem material e má compreensão da fé cristã. Apenas para ficar em um argumento, o Novo Testamento afirma com vigor que Abraão, o recebedor da promessa da terra, não considerou a sua ocupação e presença nela o cumprimento de promessa nem profecia alguma, como se pode ver:

Pela fé Abraão, quando chamado, obedeceu e dirigiu-se a um lugar que mais tarde receberia como herança, embora não soubesse para onde estava indo. Pela fé peregrinou na terra prometida como se estivesse em terra estranha; viveu em tendas, bem como Isaque e Jacó, co-herdeiros da mesma promessa. Pois ele esperava a cidade que tem alicerces, cujo arquiteto e edificador é Deus.” (Hebreus 11.8-10; ênfases acrescentadas)

O filosemitismo, o amor pelo povo judeu, precisa ser mais bem compreendido à luz do Novo Testamento, se é que se quer alegar fazer parte da Igreja cristã. Em Atos dos apóstolos, entre os capítulos 8 e 10, o Espírito Santo trabalhou reconciliando com Deus um descendente de Cam (o etíope no cap. 8), um descendente de Sem (Saulo no cap. 9, portanto, um semita) e um descendente de Jafé (Cornélio, no cap. 10). Parte da Igreja no séc. XXI tem ignorado a sua vocação “para todos os povos” e concentrado suas forças no único povo que rejeitou e rejeita explicitamente a Jesus Cristo como salvador. Isso tem causas bem conhecidas, que não podemos detalhar neste artigo. Mas em linhas gerais, não resta dúvida de que a judaização da Igreja, como condenado já na epístola aos Gálatas, e essa idolatria aos costumes e a tudo quando diz respeito àquele povo, precisa ser revisto à luz do Novo Testamento, não mediante a rejeição e o abandono dele.

[1] Portal GuiaMe, 20.10.2020. Disponível em <https://guiame.com.br/gospel/israel/inspirados-na-profecia-biblica-cristaos-sul-coreanos-ajudam-judeus-voltar-para-israel.html> e acessado em 01.03.2021.

Magno Paganelli

É doutor em História Social (USP), mestre em Ciências da Religião (Mackenzie), professor na Faculdade Evangélica de São Paulo (FAESP), no Seminário Batista Independente e no Betel Brasileiro, onde também é Coordenador do Master em Teologia. É um dos idealizadores do movimento “Paz para Todos”, É editor e escritor, autor de 34 obras publicadas, além de artigos científicos e capítulos em livros. Na Academia, pesquisa o conflito Israel-Palestina. Inscreva-se no canal: www.youtube.com/c/magnopaganelli

1 Comment

  • Dr Magno,

    Desculpe minha ignorância, mas se há uma “forçação de barra” para se ajudar no cumprimento de uma profecia para com os judeus dispersos, e que, conforme seu artigo não precisamos dar uma forcinha para Deus (palavras minhas), não seria também uma ingerência humana o querer alcançar povos não alcançados? Por que não deixamos que os povos não alcançados, de regiões remotas, que eles sejam tocados diretamente por Deus, conforme Romanos 1?
    Estou tentando usar uma lógica (não sei se válida) que abstraí de seu texto.

    Obrigado.

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