Qual é a do Papa?

 Qual é a do Papa?

Estreou na última quarta-feira, 21, Francesco, um documentário sobre a vida e obra do atual Papa, durante a programação do Festival de Cinema de Roma. Um resumido conjunto das afirmações do pontífice é que “os homossexuais têm direito a formar uma família”, “eles são filhos de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deve ser excluído ou forçado a ser infeliz por isso” e “o que temos que fazer é criar uma legislação para a união civil. Dessa forma, eles ficam legalmente cobertos.”

Essas declarações estão repercutindo amplamente, para o bem e para o mal. Noto que em cada grupo cristão a reação tem sido aprovada ou reprovada a partir da preferência política, no caso dos progressistas, ou dogmática, no caso dos conservadores. As declarações têm a sua complexidade, é verdade, e acho necessário que entre nós, evangélicos, a discussão do tema seja feita o quanto antes e com seriedade.

Um dos pontos mais caros entre cristãos e a sociedade civil conservadora é o conceito de família. O conceito de família não surgiu ontem, é milenar, bem definido historicamente dentro das sociedades religiosas em todas as épocas, muito antes da configuração jurídica dos Estados modernos. Segundo a crença, a família tem a bênção dos céus. Família é instituição estabelecida pelo próprio Deus segundo a Bíblia, quer na sua porção judaica do Antigo Testamento, quer em sua ratificação por Jesus na porção cristã do Novo Testamento. Outras tradições religiosas seguem na mesma direção quanto ao conceito de família.

O que parece estar oculto ao olhar mais apressado, e que está por trás das falas do Papa, é a defesa feita a casais homossexuais para que tenham o direito a firmar união civil. O conceito de união civil, como o próprio termo presume, não é o casamento nem é religioso. Eu não entrarei na discussão politizada (e muitas vezes militante) de gênero, mas considero aqui o fato da união de duas pessoas biologicamente iguais no gênero (masculino ou feminino).

É um fato essa união, mas a rigor trata-se de um casamento? Da perspectiva da religião não é e da mesma perspectiva religiosa, não se considera ter a bênção de Deus em tais casos. Mas quem sou eu para dizer o que Deus está ou não abençoando? Eu não represento a ninguém, falo por mim, mas é assim que a Teologia clássica trata o tema.  Isso altera o sentimento e a situação dos que se unem nesta condição? De modo algum! Muitos estão pouco se lixando para que a Igreja pensa.

Imagino que se estamos em um novo tempo (como alguns setores da sociedade alega), tempo quando se propõe até mudança da língua portuguesa a fim de promover a inclusão, quando os marcos conservadores têm sido removidos pelas novas demandas, por que não aproveitar e mudar, também, o nome dado a uma instituição como o casamento? Por que não chamar simplesmente de união, o que de fato é, em vez de casamento? Se a tradição cristã é tão repugnante assim para essas pessoas, por que implicam tanto com os valores cristãos tradicionais, com seus conceitos e vocabulário? É no mínimo suspeito que seja assim, e pouco inteligente também.

Tal união, como juridicamente definida é, ainda, uma união civil. O país é laico e não deve arbitrar em favor de nenhum grupo. E aqui está o ponto que a Igreja precisa encarar de frente: toda pessoa no país é, antes de tudo, um cidadão, não um religioso. Esse cidadão paga impostos e têm direitos, para os quais o Governo tem deveres: educação, saúde, segurança, proteção dos direitos etc. Não vivemos nem queremos uma teocracia, nem cristã, nem islâmica, nem dos orixás nem nada.

O papel da Igreja em um cenário assim é influenciar enquanto sal e luz. Mas para influenciar precisa, antes, alcançar a condição para tal. Pela imposição de seus valores conseguirá, no mínimo, repulsa e reação negativa. Deverá influenciar pelo exemplo, fazendo com que a sua dinâmica interna chame a atenção dos que a observam de fora. Ao Estado cabe, sim, proteger o direito dos seus cidadãos, independentemente de quem seja, assim como o próprio Deus o faz com os habitantes do seu planeta: dá sol e chuva para bons e maus, justos e injustos (Mateus 5.45-46).

Quando andamos de carro sobre uma rua pavimentada, quando levamos nossos filhos a um hospital público, quando eles se sentam no banco de uma escola do Estado, quando somos protegidos por uma dupla de policiais, ali está o dinheiro dos impostos pagos por uma pessoa homoafetiva, por alguém cuja vida é torta diante das nossas crenças, mas que nem isso faz da pessoa um verme, não mais do que nós mesmos somos quando nos reconhecemos como pecadores diante de Deus.

É necessário, por outro lado, a reciprocidade. Aqueles que defendem ampliação dos direitos da comunidade LGBTI+ saberão respeitar as demandas da comunidade evangélica? Nós também somos, de certo modo, um grupo minoritário, a despeito das estatísticas indicarem perspectivas de crescimento numérico. Insisto: esse movimento de remoção dos marcos cristãos, como há séculos estão postos no cenário público, continuarão a ser atacados ou os que exigem tolerância não conseguirão agir de acordo com o próprio discurso?

Magno Paganelli

É doutor em História Social (USP), mestre em Ciências da Religião (Mackenzie), professor na Faculdade Evangélica de São Paulo (FAESP), no Seminário Batista Independente e no Betel Brasileiro, onde também é Coordenador do Master em Teologia. É um dos idealizadores do movimento “Paz para Todos”, É editor e escritor, autor de 34 obras publicadas, além de artigos científicos e capítulos em livros. Na Academia, pesquisa o conflito Israel-Palestina.

2 Comments

  • Ponho-me plenamente em acordo com o ilustre colunista. Se pensarmos a respeito da pretensão do Papa Francisco nas considerações sobre as relações homoafetivas, talvez concluamos que Sua Santidade aproveita a situação totalmente razoável como direito social do cidadão, para atribuir aos interessados uma condição alheia aos conceitos religiosos que, por sua vez, também devem ser plenamente resguardados pela legislação.
    Portanto, resta na atitude do líder católico um quê de unilateralidade. Pode-se chamar a isso visão inclusiva?

  • Dou graças a Deus por ler um texto como esse. Essa exposição clara e biblicamente fundamentada nos proporciona o alívio e a alegria de saber que “há vida inteligente entre os crentes”!

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