Pauta identitária? Não, obrigado

 Pauta identitária? Não, obrigado

“Assim sendo não pode haver judeus nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus”. (Gálatas 3.28)

Depois de ver o fracasso da revolução do proletariado ao redor do planeta, algo que nunca saiu do papel pela razão de que trabalhador quer melhoria de vida, não implodir o sistema, o movimento da esquerda recriou a luta de classes propondo conflitos entre as chamadas minorias. As minorias e as chamadas pautas identitárias nada mais são do que a fragmentação das classes em grupos e coletivos menores e mais numerosos. É a aplicação da velha máxima “dividir para governar” e que muita gente que se engaja e defende essas ideias não percebe, ou finge não perceber porque se locupleta da narrativa.

Mas a narrativa atrai jovens animados com a ideia de justiça, igualdade, fraternidade e virtudes dessa ordem, e entre eles os jovens cristãos, mas a atração os levará para o matadouro. O beco sem saída a que esse caminho conduz é não ser o caminho proposto pelo Evangelho, embora se valha da maquiagem evangélica, porque ela confere uma áurea pura e legítima. Não se iluda. O Evangelho não é nem se realiza em programas ideológicos, nem secularistas, políticos, econômicos ou culturais.

O Evangelho é um programa autônomo que se apoia na realidade, não nas utopias e nos messianismos tolos. Essa realidade, o fundamento da autonomia do Evangelho, é Cristo. Não por acaso Paulo advertiu: “Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo.” (1Coríntios 3.11)

Devido à dinâmica natural das sociedades, incluída a brasileira, há movimentos que despontam de tempo em tempo na tentativa de equilibrar suas forças internas. É como uma dialética, uma evolução que move as sociedades para melhorias e avanços a novos estágios. Quando a Igreja não mostra protagonismo no equilíbrio dessas forças, como é o caso hoje, discursos e bandeiras com a aparência de bom mocismo captam atenção e esforços de quem quer transformar o mundo em um lugar melhor para todos. Novamente é Paulo quem deve nos advertir: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo.” (Colossenses 2.8)

Considero o versículo que abre esta reflexão um dos mais emocionantes textos da Escritura. E é atualíssimo, porque, afinal, numa época em que as forças políticas e ideológicas estão empenhadas em fragmentar a sociedade com a finalidade de governar, revestindo a antiga luta de classes das pautas identitárias (com algum ar de legitimidade), jogando uns contra os outros – incluindo nós, das igrejas – esse texto destrói tais narrativas de alto abaixo.

Em poucas palavras, o apóstolo demonstrou que “em Cristo”, uma locução frequente em suas cartas e sem a qual ele nada escreveu, findam as distinções contra as quais esses movimentos raivosos têm se manifestado. O versículo põe um fim nas distinções étnicas e culturais (“nem judeus nem grego”), socioeconômicas (“nem escravo nem liberto”) e de gênero (“nem homem nem mulher”). O que sobra para os coletivos, manipulados por uma engenharia política, é nada.

A pauta da defesa dos direitos humanos, a pauta pela reconciliação nacional, a pauta pela justiça e a igualdade de direitos é pauta da fé cristã há dois mil anos, e ela é do Evangelho, não é partidária e nunca foi, senão por interesses econômicos e de poder. Quem quer o poder se agarra a elas, quem quer o Reino se volta para Cristo (João 5.39-40).

O Evangelho não perde para as bandeiras políticas e sociais levantadas aqui e ali, de modo que cristãos convictos e atuantes podem descartar a necessidade de engajamento na militância (sempre poluída) e o partidarismo que fragmenta, que separa e aliena as pessoas em vez de unir.

Não há outro caminho para unir pessoas se Cristo não for o caminho. Ao menos a ética de Cristo precisa ser o ponto em comum para o diálogo nacional, bem como na Igreja, que por vezes tem sido seduzida pelo canto da sereia da política partidária. Somente “em Cristo” as nossas diferenças poderão ser dirimidas e “em Cristo” teremos um objetivo em comum, uma fala uníssona.

“Se por estarmos em Cristo, nós temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude.” (Filipenses 2.1-2; ênfases minhas)

Realmente, esse Paulo sabia das coisas.

Magno Paganelli

É doutor em História Social (USP), mestre em Ciências da Religião (Mackenzie), professor na Faculdade Evangélica de São Paulo (FAESP), no Seminário Batista Independente e no Betel Brasileiro, onde também é Coordenador do Master em Teologia. É um dos idealizadores do movimento “Paz para Todos”, É editor e escritor, autor de 34 obras publicadas, além de artigos científicos e capítulos em livros. Na Academia, pesquisa o conflito Israel-Palestina.

2 Comments

  • Excelente texto: claro, ideias bem articuladas com argumentos bíblicos. Parabéns!

  • Claro, conciso e objetivo! Parabéns pelo texto!

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