O “novo crente” e a “nova igreja” no Day After da Quarentena – Teremos uma nova Reforma? – parte 2

 O “novo crente” e a “nova igreja” no Day After da Quarentena – Teremos uma nova Reforma? – parte 2

Foto de Ben White no Unsplash

Este é o segundo artigo da série que busca indicadores e pistas sobre o final da quarentena e as transformações internas pelas quais as pessoas estão passando, ainda que não possamos mensurar com precisão sua magnitude. Neste momento, algumas perguntas nos ajudam:

  • Como será nosso povo, nosso trabalho, nossa comunicação no Day After?
  • O quanto estaríamos fragilizados e fortalecidos?
  • O quanto nossas crenças e práticas religiosas foram abaladas e fragilizadas ou necessitam ser ressignificadas?
  • Como nos sentiremos, quais prioridades iremos redescobrir, o que vamos deixar de priorizar?
  • Como valorizaremos a convivência?
  • Qual será a percepção do que seja igreja, local sagrado?
  • Quais serão as novas percepções em prioridades nos temas a serem tratados nas mensagens e nos estudos que receberão?
  • Como será a percepção do sentido de tempo para quem sai de um ambiente de isolamento social?
  • Como lidar com os sentimentos das pessoas na volta da quarentena? Daquelas pessoas que adoeceram, das que perderam familiares?

É possível entender que Deus está nos dando a oportunidade para descobrirmos novas alternativas para dinamizar a igreja, o ministério. Vamos lembrar que quando buscamos promover uma reestruturação, seja da vida da igreja, seja da vida denominacional, temos de fazer com tudo em movimento. Seria como trocar o pneu de um carro em movimento. Muitas vezes não conseguimos sucesso. Agora é diferente, pois o “carro” está parado, podemos avaliar as condições em que vivíamos, descobrir tendências para este novo cenário que teremos pela frente. É o momento de aprendemos, de sairmos vitoriosos com tudo isso e evitarmos o ciclo de fracasso-sucesso-fracasso tão comum na época dos juízes. Então vamos avançar em mais algumas tendências possíveis para este novo momento.

Jovens poderão estar mais disponíveis pela sua facilidade e ambientação no uso das redes sociais. Tem sido frequente jovens que iniciam seus estudos universitários se afastarem do convívio da igreja por não terem recebido o ferramental necessário para esta nova fase da vida. Agora pode surgir a oportunidade para demonstrar o seu valor ajudando a igreja a desenvolver sua “digitalização”, seja nas transmissões de cultos e reuniões, seja no reforço na comunicação virtual, ou outras áreas em que possam se sentir úteis. Além disso, será boa oportunidade para que possam ser ouvidos para expressarem suas necessidades que poderão ser supridas pelo pastor e igreja. Isso poderá criar neles bom grau de senso de valor e engajamento não apenas nas atividades da igreja, mas também no desenvolvimento de sua vida espiritual. Vale aqui cada pastor se aprofundar na compreensão geracional, isto é, nas características e necessidades das diversas gerações e como envolver cada uma delas na vida cristã comprometida com a Palavra de Deus, vida transformada e transformadora.

Sentimento de utilidade. O membro da igreja foi “empoderado”, isto é, acabou tendo de se descobrir sozinho ou com a família, no máximo, desde que não pode ter a presença  no templo e em atividades coletivas da igreja, nem o acesso presencial da atenção pastoral. Assim, espera-se que muitos crentes tenham notado o quanto precisam de preparo para viver o Cristianismo, para compreender a Bíblia, para também serem líderes em seu lar, cuidar da espiritualidade pessoal e da família. Isso oportuniza a ampliação no atendimento aos membros da igreja, especialmente por meio da área de educação, que temos notado muitas vezes  não ser objeto de prioridade, para a promoção de capacitação no campo da liderança, da interpretação da Bíblia, de métodos de estudos bíblicos etc. Mas também será excelente oportunidade para a promoção de programa para a descoberta dos dons de serviços pelos membros da igreja de modo que consigam espaço para atuar em áreas específicas servindo uns aos outros. Não há dúvida que isso vai requerer do pastor e líderes descentralização para o envolvimento de todos, também romper com o exclusivismo “clerical” de que o pastor é proprietário dos “segredos” da fé. Mais ainda, estar disposto a saber lidar com as diferentes maneiras de se realizar atividades na igreja, pois, com a participação de mais pessoas, teremos também a ampliação de diferenças de percepção em como certa atividades poderão ser realizada. O senso clerical aqui, sem dúvida, fica comprometido, passa por um esvaziamento, mas, em compensação, mais pessoas poderão ser instrumentos de Deus, seja para evangelização, seja para servir com seus dons de serviços. Agora Efésio 4.11, 12, se cumpre com dinâmica crescente, em que todos são do ministério da igreja.

As pessoas também são gente e humanas. Tem sido possível notar que a formação pastoral em seminários focaliza o lado lógico, racional, funcional e pragmático, para que o pastor possa atender às atividades eclesiásticas, seus programas e estrutura. Também os esforços nos estudos teológicos nos levam em geral à compreensão racional da vida, nem sempre dando espaço para o sentimento, para as emoções. É notório que isso pode “sufocar” o crente e represar situações complexas de sua dinâmica interna da personalidade. Será necessário mensurar o que ocorre internamente por situações decorridas no momento em que a quarentena instala nas pessoas sentimentos como medo, angústia, incertezas e, em casos mais graves, o senso de perda para aqueles que tiveram vítimas do Coronavírus e que não puderam passar normalmente pelo ciclo do luto (negação / raiva-revolta / barganha-negociação / depressão-tristeza / aceitação-resolução), não tendo acesso ao parente que morreu que pode ter sido sepultado em uma vala comum, nessa interdição do luto. Tudo isso terá consequências inimagináveis nas pessoas e exigirá que cada igreja cuide com muito carinho, acolhimento e atendimento aos seus membros. Se a igreja não tem uma área de aconselhamento ou capelania, será agora o momento certo para que isto possa ocorrer. Se a igreja não tem membros habilitados para isso, poderá ser a oportunidade em pedir ajuda para outras igrejas, para algum seminário ou faculdade teológica próxima. Agora é momento para redescobrir este espaço afetivo, emocional e mental na vida cristã. Será necessário incluir o lado humano das pessoas em nossa compreensão de vida. O teologismo, isto é, o interpretar a vida apenas pelo lado espiritual e o resto é apenas resto, não poderá ser mantido, mas precisamos incluir o todo da vida na vida. Veja que neste momento o ser igreja como ponto de encontro de final de semana estará fadado ao fracasso, estará superado.

E agora qual decisão tomar? Na quarentena membros da igreja foram expostos a situações de conflito, sejam na convivência matrimonial ou familiar, seja em compreender os conflitos políticos que surgiram no país e as notícias dos meios de comunicação, que mais conflitos disseminavam e disseminam. O tema da ética surgiu a cada momento da quarentena com o surgimento a cada dia de filmes ou programas sobre situações e dilemas nesta área e, sem referencial seguro da Palavra de Deus, será difícil o crente saber qual o caminho correto. A ética tem a ver com decisões, e, sempre decidimos, mesmo que não tenhamos decidido nada, decidimos nada decidir. O ponto aqui será considerar qual é a fonte de nossas decisões. Isto é, qual é a fonte do “certo e do errado” para decidirmos. Vamos lembrar que nem sempre temas éticos tem sido a prioridade nos temários de estudos na vida eclesiástica. Precisamos ir mais além dos temas missionários, evangelísticos, escatológicos, muitas vezes preparando o crente para a morte, mas deixando de lado a entrega de ferramentas suficientes para que ele possa utilizar em suas escolhas diárias. Mais forte ficará o preparo para o crente ter vida significativa, ser modelo de vida, ter vida inspirativa a ponto de espalhar o agradável perfume do Evangelho e atrair como testemunha (At 1.8) muitas vidas para os pés do Mestre.

Não paramos por aqui, voltaremos com mais pistas, inclusive apresentando a necessidade de novas competências e habilidades que se tornam necessárias na volta da quarentena, também como deveremos implementar a comunicação na igreja, nossos sermões etc.. Mantenha contato pelo WhatsApp 11-94596-6688 para receber outros artigos sobre este e outros temas atuais.

Lourenço Stelio Rega

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é bacharel e Mestre em Teologia, Licenciado em Filosofia, Mestre em Educação, Doutor em Ciências da Religião. Pós-graduado em especialização em Análise de Sistemas. Tem formação na área de liderança estratégica. Atualmente faz pesquisas no campo da Neurociência e também sobre os efeitos da Quarta Revolução na vida profissional, ética e religiosa. Professor de Ética, Bioética, Filosofia da Religião, Administração Eclesiástica, Aspectos éticos da liderança, Técnicas avançadas e ferramentas de gestão estratégica na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, onde também é seu Diretor desde 1997. Mantém a coluna “Observatório Batista” em O Jornal Batista, com publicações duas vezes por mês. Autor de diversos livros.

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